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Especialistas e comunidades pedem inclusão de Línguas e Culturas locais no currículo escolar

Atualizado: 8 de Set de 2019








A inclusão da disciplina de Línguas e Culturas Locais no currículo escolar esteve em debate  na terça-feira, 27 de agosto, na Comissão de Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia, e terá o apoio dos deputados para debater com o governo o encaminhamento de projeto de lei para regulamentar o tema. A ideia é preservar a diversidade das línguas faladas no Rio Grande do Sul, como os dialetos Talian, Pomerode e Hunsrik, que tornam o estado um dos mais plurilíngue do país.


O assunto foi debatido durante audiência pública da comissão, por solicitação dos deputados Carlos Búrigo (MDB) e Elton Weber (PSB). Sob a presidência da deputada Sofia Cavedon (PT), o Colegiado Setorial da Diversidade Linguística do RS, liderado por Cléo Altenhofen, lotou o Plenarinho na exposição dos projetos em funcionamento em municípios como Santa Maria do Herval, Camargo, Canguçu, Westphalia, Nova Hartz e Santa Cruz do Sul. Também esteve presente o nigeriano Abiodur Kazeen Fashola, pela língua iorubá.


Elton Weber encaminhou a discussão do assunto provocado pela professora Solange Hamester Johann, coordenadora do Projeto Hunsrik-Plat Taytx em Santa Maria do Herval, onde o dialeto originário da Alemanha vem sendo preservado junto às comunidades através do ensino formal. A preservação dos dialetos, hábitos e costumes dos antepassados, conforme Weber, dependem do seu aprendizado nos bancos escolares, defendendo a constituição de um grupo para tratar do assunto no Legislativo em parceria com o Executivo, a quem cabe esse tipo de iniciativa.


Também Carlos Búrigo (MDB) entende que é preciso resgatar e preservar esse patrimônio cultural através dos currículos escolares, a exemplo de alguns municípios que adotaram essa prática escolar, como Camargo e Santa Maria do Herval. “Sem repassar aos jovens, esses dialetos podem morrer”, comentou o deputado.


Ainda Any Ortiz (PPS) comentou a importância da preservação desses dialetos nas comunidades, o que na maioria dos casos é feito no ambiente familiar, mas tende a desaparecer sem o estímulo escolar. O deputado Gaúcho da Geral (PSD) acompanhou o debate, assim como Silvana Favreto, pela Seduc.


A deputada Sofia Cavedon elogiou a organização do Colegiado Setorial da Diversidade Linguística do RS, antecipando o encaminhamento da demanda apresentada.


Diversidade linguística


O professor titular do Departamento de Línguas Modernas da UFRGS, Cléo Altenhofen, que responde pela coordenação do Colegiado da Diversidade Linguística do RS, vinculado à Secretaria da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, destacou a ampla diversidade de línguas faladas no estado, desde o ioruba e o guarani, os quilombolas, assim como as influências da fronteira do Uruguai e Argentina e as ramificações principais da imigração de italianos, alemães e português, poloneses e russos. Ele explicou que essa diversidade linguística tem contornos geográficos e demográficos, uma vez que o Rio Grande do Sul, em pesquisa de 1940, já era apontado como o mais plurilíngue do país, com 47,6% de bilíngues, e falantes de italiano, naquele período, eram 64% e alemães, 61%, conforme a representatividade demográfica. Outras comunidades têm a linguagem representada pela geografia, nas fronteiras, os quilombolas, caingangues e guaranis, e até mesmo os sinais de Libras se somam nesse mosaico de falas.


O sociolinguista explicou que o estudo envolve não apenas o parentesco, mas as vizinhanças e os contextos sociais, “mas isto não aparece na escola”, justificando a importância da educação plurilinguista e o projeto de introdução da disciplina no currículo escolar. “Temos inúmeras atividades que estão acontecendo em ambientes escolares e culturas, mas que não têm o abrigo no currículo para se desenvolver de maneira constante e segura”, afirmou. Essa medida, disse Altenhofen, “me parece democrática, sensata e justa para a representatividade dessas línguas no RS”.


A seguir, o mestre em Letras e doutor em germanística apontou e dissertou sobre os três tópicos do projeto, que vem a ser o formato da disciplina, a sua relevância e a viabilidade. Para o formato, a proposta é uma carga horária de duas horas semanais, com oferta regular e obrigatória conforme a decisão local e opção, ressaltando que se trata de “línguas e culturas locais”, ampliando o conhecimento além do domínio gramatical e alcançando a identidade de cada comunidade. Descendente de russos, estudou letras na UFRGS e não esquece a clássica recomendação de Leon Tolstói, “se queres ser universal, fala primeiro da tua aldeia”, a motivação de Altenhofen para estimular o estudo criterioso das comunidades.


Experiências municipais


A coordenadora do Projeto Hunsrik-Plat Taytx, Solange Hamester Johann, fez uma exposição dos 15 anos de criação do código de escrita dessa língua, que tem 1.500 anos e se mantém viva em diversos países, com predominância em quatro estados da Alemanha, dois estados da França, é a língua oficial de Luxemburgo, e também é falada na Suíça, Áustria e até mesmo nos Estados Unidos. “As línguas expressam quem nós somos, mostram a vida da nossa cultura e estruturam nossos pensamentos e identidades”, resumiu Johann, informando que o idioma Hunsrik tem registro na Unesco e é reconhecida como “língua viva da América do Sul”. E também pertence ao patrimônio histórico e cultural do RS, por aprovação da Assembleia e encaminhada pelo ex-deputado João Fischer (PP) em 2012.


Em Santa Maria do Herval, por decreto do prefeito, desde 2009 é a língua falada em até 50% das salas de aula. Ela observou que outros municípios, como Estância Velha e Nova Hartz, também trabalham nesse sentido. E adiantou que a Assembleia Legislativa, assumindo essa demanda, será a primeira do país e servirá de modelo para outros estados.


No município de Camargo, no Norte do Estado, o secretário de Educação e Cultura, Samir Casagrande, relatou a experiência conduzida desde 2017 pela prefeita, Eliane Trentin, onde a cultura italiana tem o predomínio do Talian, mas estava se perdendo entre as gerações. A variante do dialeto vêneto, o Talian entrou no currículo de toda a rede escolar, resultando em prêmio de boas práticas dado pela Famurs e reconhecimento como referência cultural brasileiro pelo Iphan. Um museu municipal foi construído com réplica das casas coloniais e seu interior reconstituído, e para integrar as comunidades interioranas, foi reeditado o costume do filó, as reuniões com os amigos, “o filó surgiu da percepção da necessidade de preservar atos e costumes dos antepassados, estimulando a convivência entre as comunidades, com jogos, brincadeiras e música”, contou Casagrande.


Com o bandoneon do avô, Giales Rai Blodor Rutz, aos 19 anos, aprendeu a tocar o instrumento sozinho e ensina dança pomerana desde 2016. Ele também é de Canguçu e revelou a empolgação dos escolares com o aprendizado da língua na escola. De Westfália, Lucildo Ahlert destacou o trabalho voluntário que realiza desde 2013, reunindo a comunidade para leituras e cantos, o resgate do vocabulário e de um dicionário trilíngue, que será lançado no dia 4 de setembro. Outro lançamento em breve será o Dicionário Escolar Conciso, Português/Pomerano, elaborado por Aloí Schneider.


Do grupo de Caxias do Sul, João Wianey Tonus apresentou aos deputados, em Talian, uma proposta que prevê preparar os professores e a criação de um programa de salvaguarda da língua Talian. Manifestaram-se, ainda, professores e representantes de Santa Cruz do Sul; Nova Hartz; Santa Maria do Herval; a Famurs e outras entidades.


De Canguçu, a professora Tanise Stumpf, ao lado das meninas Karen Gabriela e Luíza, da Escola Municipal Carlos Moreira, relatou a rotina do ensino da língua pomerana uma vez por semana do 6° ao 9° ano, uma vez que lá foi oficializada em 2010. Outra atividade que mobiliza a comunidade é a Festcap, que há 15 anos atrai o interesse dos jovens para a cultura pomerana. Tanise lamenta que na rede estadual conseguiu iniciar o ensino da língua, mas foi interrompido. Agora, na rede municipal, dedica-se integralmente ao ensino também de inglês, português e artes. Ela estava vestida com o traje típico da Alemanha e as adolescentes, também estilizadas, cantaram o hino “Como é bonito, Senhor”, em língua pomerana, encerrando a audiência pública. 



Com bandoneon do avô, Giales Rai Blodor Rutz, aos 19 anos, aprendeu a tocar o instrumento sozinho e ensina dança pomerana desde 2016.


Texto e vídeo: www.gazetaregionalonline.com.br

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